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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Pequeno Degustador de Feijões

O certo foi desistir.

Eu consigo me manter limpa e minimamente arrumada apenas numa parte do meu dia de trabalho. Pela manhã. Depois disso, eu faço quase correndo o trajeto de 15 minutos até a minha casa para iniciar a honrosa atividade de cozinheira da família. Tenho cerca de 40 minutos para preparar e colocar na mesa uma refeição apetitosa e saudável para três adultos e duas crianças com fome  monstro.

Eu não digo isso para que se compadeçam dessa minha jornada dupla. Não. Longe disso. Eu adoro cozinhar a comida que a minha família come e faz algum tempo que decidi que queria que meus filhos tivessem uma memória afetiva, em relação à comida caseira, muito além da papinha pronta, dos congelados do supermercado, do restaurante a quilo e da pizza de sábado à noite. Desde então eu redescobri a minha paixão pelos alimentos e pela deliciosa - mesmo! - alquimia da cozinha.

Obviamente, nem tudo são flores. Há pouco tempo para exercer de fato essa paixão no dia a dia. É preciso cozinhar com a roupa que eu uso para trabalhar. Quem me conhece sabe que eu não tenho mãos, mas tentáculos desajustados que, sem muito esforço, transformam a cozinha num campo de guerra. E nessa, a roupa pode sair prejudicada para o turno da tarde.

Depois de meses de prática, já consigo sair incólume da cozinha para a mesa do almoço. E é ali, sentadinha diante do meu prato bem servido, que ocorre a sucumbência da roupa imaculada.

Quando meu caçula demonstrou interesse por comida, cerca de um mês antes de completar seis meses de vida, eu comecei a pesquisar formas alternativas de fazer a introdução de alimentos, já que a minha experiência com a irmã havia sido um pouco ruim, ou inexistente, por conta da ida dela para a creche em tempo integral naquela época. Logo no início, numa troca de emails com a Dani, ela me falou de uma técnica, com um nome que não me lembro, que consistia em deixar o bebê comer com as próprias mãos aquilo que ele quisesse. Uau! E bebê pode comer aquilo que quer? Achei revolucionário o negócio, para pouco tempo depois descobrir que é natural comer assim. Não é técnica, é só...sobrevivência.

Eu já não era muito adepta de método e limpeza na hora das refeições, sempre deixei a Ísis fazer a bagunça que quisesse com os alimentos, inclusive comê-lo, então logo me identifiquei com o tal método de deixar comer com as mãos. E ainda por cima havia um vídeo do maravilhoso pediatra espanhol - salve, salve! - Carlos Gonzalez para me fazer crer que nada mais óbvio do que deixar o bebê comer aquilo que quisesse com as próprias mãos.

E assim foi. Não todas as vezes, claro, mas na grande maioria das vezes, os dedinhos gorduchos do Pedro estavam atolados dentro do prato de comida. Dele ou meu. Muitas vezes ele acertava o local correto para colocá-la - a boca -, mas muitas foram as vezes em que o destino era a cabeça, o chão, o meu cabelo.

Com o tempo eu fui percebendo que o fato dele usar as próprias mãos para comer o que quisesse liberava as minhas mãos, olha que legal, para eu comer o que quisesse! Não é lindo isso? Eu achei! E seguimos nesse ritmo até hoje. Claro que há evolução, e mais recentemente ele tomou gosto por comer de garfo ou colher, mas enquanto uma mão segura o garfo e cavoca o prato de comida em busca de alguma coisa, a outra fuça os grãos de feijão, as beterrabas cozidas, os brócolis, os grãos de arroz, o macarrão. E assim ele vai comendo cada coisa na sua vez, o que mais gosta primeiro e o que sobrou depois. Se sobrar espaço, claro. Não raras vezes ele come só a beterraba do prato, ou o brócolis, ou faz uma coisa muito engraçadinha que é catar os grãos de feijão e passá-los da farofa antes de levá-los à boca! Um especialista na arte de degustar alimentos, com certeza, alguém duvida?

Eu contei que nem tudo são flores, né? Tem o efeito colateral. O primeiro é que o Infante Degustador de Feijões parece conhecer aquele hábito centenário de dar um pouco para o santo, de maneira que sempre rolam uns bons punhados de comida lançados ao chão. E o outro é que eu, a mãe, que sento ali do ladinho, sempre sou alimentada por aquelas mãozinhas gorduchas, que nem sempre acertam apenas a minha boca. Um dedinho no molho de tomate e outro no meu ombro, uma palma de mão no caldo de feijão e eia que surge aquela pintura natural na minha manga de camisa, de dar inveja a muita professora de educação infantil. Todo dia. E foi aí que eu desisti.

Desisti de tentar me manter limpa e arrumada durante todo o dia. No começo até tentei trocar a camisa para o turno da tarde, mas percebi que não seria viável. Eu teria que aumentar o número de camisas no meu guarda roupa (e eu ando repensando a necessidade de se ter 12354869 camisas penduradas no cabide) ou eu teria que lavar máquinas e mais máquinas de roupas sujas que não possuem espaço suficiente para secarem na minha lavanderia. 

Então eu desisti.  E descobri que deparar-me com a marca perfeita de um dedinho gorducho pintado em molho de tomate da macarronada do almoço no punho da camisa branca me alimenta o dia.

Como sozinho, faço pintura com as mãos e ainda escovo os dentes!


10 comentários:

  1. Nine querida...

    Como é bom ler seu blog!!!Esse texto q mais uma vez me fez pensar e repensar minhas atitudes como mãe. Você e quem nos acompanha la no blog sabe da minha frustação com alimentação que veio errada desde amamentação!!!
    Com a comida eu sempre tive ideia fixa q fiz e faço tudo q posso. Mas fiquei me perguntando se esse tudo tem sido o certo ou o melhor Eu lendo seu post caiu a ficha q nunca deixo a Sophia (ja com 3 anos) sequer comer sozinha.Pq? Pra manter a mesa limpa e garantir q coma tudo q tem no prato. Será q esta aí meu maior erro? Fiquei ate com vergonha. :(
    Mas ainda ha tempo e eu vou sim tentar dar autonomia a ela de comer o q quiser.E encoraja-la a degustar outros sabores.

    Eu volto pra contar do nosso progresso!! Ou não rsrsrs
    beijos

    Manu (demae-prafilha.blogspot.com)

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    1. Tenta sim, Manu, e depois me conta como foi! Se quiser compartilhar é só mandar um email! Beijos!

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  2. Ah!!!

    Q lindo o Infante!!!
    Babei aqui

    bjs Manu

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  3. Aqui sempre praticamos a tal de BLW, ou, como o marido chama, comer igual indio. Funciona, mas suja, e foi aí que eu descobri que o aspirador de pó é o segundo item indispensável em uma casa. O primeiro, logico, é a maquina de lavar roupa.

    Beijos!

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    1. Não lembrava a sigla! Mas é isso mesmo! Máquina de lavar roupas é tudo...aiai Beijos!

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  4. Lindo Pedro!
    Jura que cozinha na hora do almoço? Poderosa!
    Que bom que eu e Carlos González demos uma forcinha na introdução de alimentos ai. Estou me achando. Hahaha
    Ah, o "método" chama baby led weaning, espia:
    http://en.m.wikipedia.org/wiki/Baby-led_weaning

    Beijooosssss!

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    1. Cozinho...tenho 40 minutos, hehe, estou quase na marca do Jamie Oliver: refeições completas em 30 minutos!
      Vc ajudou muito, ajuda sempre!
      Beijos!

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  5. Oi, li alguns posts do seu blog e achei muito interessante,com certeza você tem potencial, vi que você é uma pessoa esforçada que só quer falar e ser ouvida na blogosfera, assim como eu. Posso dizer que gostei muito do que li, sei que será um grande blog pois é de fácil entendimento e o conteúdo é gostoso de ler. Sou Luciana Shirley do blog http://coisasecoisasdalu.blogspot.com.br/ se desejar me visite e siga, mas só se gostar, eu vou retribuir seguindo também o seu.

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  6. Obrigada pelo carinho, Luciana! Beijos!

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