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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Considerações sobre o sono - 2 anos depois

Eu e Ísis: 3 semanas após o parto

Olhando para essa foto, que foi tirada pelo pai num momento de exaustão extrema, eu fico com um arrepio na espinha, porque grávida novamente, sei que terei não apenas um, mas vários repetecos desse dia em poucos meses. Louca, eu? (pergunta inspirada na Mari - viciados em colo).

Uma das coisas que mais me atormentavam antes do nascimento era o sono, porque eu sou uma pessoa que dorme, ops, dormia muito. Para mim não bastam as 8 horas diárias, eu preciso de mais. Para piorar eu sou assim, meio devagar, sabe? Não sou viciada em atividade, minha velocidade é slow motion, e eu durmo com as galinhas desde sempre. Atividades noturnas não estão entre as minhas preferidas - eu sempre fui daquelas que cansava da balada lá pelas duas da madruga, mas ficava até mais tarde só para não chatear as amigas. Sou mole, mas sou parceira!

Eu não tinha ilusões de que bebês recém nascidos não choravam à noite. Quando eu tinha 12 anos nasceu minha irmã mais nova e eu me lembro muito bem dela chorando na madrugada, então eu não era totalmente desprovida de um senso de realidade de que bebês choram, acordam à noite para mamar e madrugam pela manhã. E mesmo assim eu me vi desesperada nos primeiros meses após o nascimento da Ísis. Mais desesperada ainda depois que li o tal livro da tal enganadora Encantadora.

Porque a minha filha não agia como aquela tabelinha de intervalos de 3 em 3 horas? Por que ela não dormia ao menos 6 horas ininterruptas, mesmo depois da mamada dos sonhos? Enfim, eu azucrinei todos - leia-se marido - em casa para tentarmos estabelecer rotinas, principalmente antes de dormir, virei a general dos ciclos, montei tabelas e nada, nada parecia mudar a realidade sonífera da minha recém maternidade.

Se vocês lerem alguns textos antigos do blog, podem se deparar com esse, onde, pasmem, eu digo para minha filha que ela dorme SUPER BEM. Mas deixa eu explicar!

Depois da febre da Encantadora, que me deixou de bom apenas a rotina noturna, silêncio e penumbra para dormir, eu dei um basta! Aceitei minha condição de mãe amamentante, aceitei que tinha uma filha que acordava mesmo, estava longe de ser um bebê-anjo (na verdade eu e o pai a enquadramos como bebê-velho, hoho), que ela precisava de colo, muito colo, muito aconchego e com essa aceitação da minha filha real, e não aquela dos livros, eu relaxei! E com esse relaxamento eu passei a visualizar que minha filha dormia até que bem, ora vejam, só! Bastava eu entender as necessidades dela, mantê-la no colo tempo integral, livre demanda e...voilá! Ela acordava 2 ou 3 vezes à noite, mas já fazia um ciclo longo de 6 horas e outros menores de 3 ou 2 horas; e durante o dia fazia suas 3 ou 4 sonequinhas de 40 minutos no máximo. Dormir mais durante o dia só se estivesse no colo!

E ela dormia fácil? Nããããooooo! Quando o cansaço batia e nada mais prestava, nem o peito, ela chorava, chorava, chorava de ficar vermelha. E eu embrulhava no estilo charutinho e saía pulando - sim, o movimento tinha que ser meio brusco - pela casa no meu, literalmente, estilo mamãe canguru, até ela pegar no sono. Na maioria das vezes resolvia, em outras não. Quando não resolvia o jeito era abraçar, sussurrar, segurar no colo e esperar ela cansar de chorar. Ela sempre resistiu muito ao sono, luta contra ele ainda hoje, porém as artimanhas agora são outras!

À noite fazíamos toda a rotina estruturada: mamada antes do banho, massagem antes ou depois do banho, mamada depois o banho. Penumbra e silêncio. Quantas vezes assisti à TV no mudo! O problema é que a Ísis sempre detestou sair do banho e tem verdadeiro horror por colocar a roupa. Chorava estrondorosamente desde os 40 dias sempre que tinha que trocar/colocar a roupa. Minhas vizinhas queridas, quando me viam passeando com ela, sempre faziam aquelas perguntas bestas: ela tem muita cólica? eu escuto ela chorar taaaanto à noite, pobrezinha...

Mas mesmo assim, eu achava que ela dormia bem! Acho que passado o susto, minhas expectativas deixaram de ser tão altas, eu parei de ler as Encantadoras da vida, mas ainda não conhecia os blogs. Hoje lendo um texto da Paloma eu fiquei me perguntando se a falta de sono não teria afetado minha percepção da realidade na época, e na verdade eu estava era muito lesada de cansaço e passei a delirar que minha filha dormia bem...não sei... só sei que foi assim.

Por isso eu sempre afirmo que a fase recém nascido é de longe a mais cansativa para mim, e a pior mesmo é a famosa exterogestação - os fatídicos primeiros 3 meses. Ali eu vivi meu calvário ao mesmo tempo em que vivia um amor enorme, que não cabia em mim. Algo que tira qualquer um da sua órbita, com certeza.

Mas cá estou eu, grávida novamente, rezando diariamente para que meu segundo filho seja uma exceção e durma, durma, durma; porém já calejada pela realidade: se não dormir, ok, é o NORMAL.

Eu me lembrei disso tudo porque a Carol vem escrevendo textos sobre seu cansaço, suas noites e dias de muito choro e eu me solidarizei. Com certeza, se tivesse um blog naquela época, escreveria as mesmas coisas em busca de uma solução, alguém que me ajudasse a passar por aquilo tudo de maneira mais amena.

Dia desses falando com o marido no jantar sobre isso, o cara ri na minha cara e diz que eu estava louca naquela época! Minha resposta foi fuzilá-lo com o olhar ao mesmo tempo em que bradava o famoso fácil falar! Ele deitava às 23:00h e acordava às 07:30h, uma noite inteira de sono! Quem levantava toda madrugada? Eu, oras! Então eu tinha todo o direito de testar as teorias mais absurdas que eu encontrasse, desde que não envolvessem deixar chorar, certo? Assunto encerrado! Humpf!

Nossa realidade atual é ela dormir na caminha nova dela, comigo ou o pai deitado ao lado, e depois de tomar o delicioso tétinho de iaiate. Tem noites (como ontem) que ela acorda 1 vez e nos chama para deitar com ela, tem noites (como antes de ontem) que ela dorme a noite inteira sem chamados. E assim vamos seguindo.

A soneca do dia se resume a uma única por volta das 14:00h e com duração de 1 hora a 1,5 horas no máximo.

Minha solidariedade eterna às mamães de pequenos bebês que estão na luta por voltar a dormir bem! Não se desesperem, vocês são normais, seus bebês são mais que normais e tudo melhora com o tempo! Posso afirmar que a Ísis só dormiu bem mesmo (e isso para mim não significa a noite inteira) a partir dos 15 meses (mas ainda acordava durante a maioria das noites, adormecendo em seguida) e com mais de 2 anos passou a dormir várias noites inteiras seguidas (leia-se das 21:00h ou 22:00h às 07:00h ), mas intercaladas por noites com chamados noturnos.

Isso não quer dizer que EU não acorde mais vezes do que ela para conferir se ela está bem coberta e não sente frio, ou se não está suando, com calor, ou se ela tosse/espirra eu levanto para ver se ela não está com febre...Tenho salvação?






sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O limite da fúria

Eu respiro fundo enquanto observo aquele bumbum branco, gorducho e sacolejante, mais parecendo os ponteiros de um relógio cuco: direita-esquerda, direita-esquerda. Ouço os gritinhos, as risadas e a musiquinha sacanamente cantada no ritmo do tic tac: LÁ-LÁ, LÁ-LÁ.

Ela tá de sacanagem, né? Alguém por favor me diga que eu não estou vendo aquele ser minúsculo me provocando sarcasticamente enquanto eu tento colocar as fraldas.

Ela mal sabe o que me passa pela cabeça! Se soubesse não ficaria rindo da minha cara desse jeito, mas sim deitava bem quietinha, comportada e com a bunda pregada na cama para eu poder colocar as fraldas! Ah, se ela soubesse quantas boas palmadas ela já levou nas minhas alucinações, quantos beliscões e puxões de orelha! Ah! Se ela soubesse...não ficava me provocando dessa forma ardilosa e irônica, batendo pernas como se fosse um bebê polvo, pulando de um lado para o outro e esfregando a bunda cheia de pomada em cada canto da cama, como se fosse uma pulga e na maior das sacanagens cantando essa musiquinha irritante quando eu seguro firmemente suas pernas, arqueando a bunda lambuzada de pomada e cabelo e farelos de biscoito de um lado para o outro!

Essa é a cena do caos!

Depois de satisfazer meus mais primitivos anseios, ainda que mentalmente, de esquentar aquele rabinho branco eu parto para o ataque: jiu jitzo fraldal! Em minutos estamos as duas enroscadas, ela tentando se desvencilhar de minhas mãos e braços e eu tentando mantê-la parada para finalmente conseguir fechar aquele maldito velcro!

Após a luta estamos ambas arfando. Ela com aquela cara safada que Deus (ou será que foi o pai dela?) lhe deu e sorrisão de orelha a orelha. E eu só mentalizando: muito bem, Janine, você conseguiu! Venceu mais uma e sem apelar para golpes baixos, torturas, amarrações e mordaças!

Respiro fundo, desanuvio a expressão e a pego no colo cheia de amor para dar. Ainda bem que, ao que parece, ela não lê pensamentos...

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Devagar...

Estou aqui, estou bem, mas confesso que não amo o primeiro trimestre de gravidez. Tenho feito um esforço mental diário para não me deixar abater, como aconteceu na gravidez da Ísis, tentar seguir com minhas atividades normais, mas está bem difícil e cansativo.

Ainda agora estava relembrando aquelas primeiras semanas de gestação em que eu entrei em desespero com o enjoo que não me abandonava. Com o desespero os sintomas foram se agravando e eu desenvolvi hiperemese gravídica. Foi ruim. Eu chorava todos os dias e cheguei a afirmar que jamais engravidaria novamente!

Confesso também que após a decisão pela segunda gravidez eu tive muito medo deste primeiro trimestre, porque se na primeira gravidez já havia sido bem difícil, na segunda eu teria toda a demanda da primeira cria. Estou me esforçando, seguindo algumas regrinhas que sempre ajudam, como não ficar de estômago vazio, levar bolachinhas salgadas para a cabeceira da cama e comer antes de levantar para não enjoar...mas o que conta muito é o tal do esforço mental. E isso cansa.

Ainda estou no começo, algo entre a 6a. e 8a. semana, mas não sei ao certo porque AINDA não consegui fazer um ultrassom.

Alguns assuntos já me rondam: parto, onde, como? Tenho lido bastante e entrado em contato com alguns profissionais por email, mas sem resposta. Aqui no sul do sul é difícil praticar a teoria do parto ativo. Colegas me recomendam seguir para POA, mas só em pensar na viagem de ida...barriguda, com filho e marido a tiracolo para um lugar que não é o meu...dá uma canseira e eu penso que diabos é isso agora de querer parto natural...cesária se faz em qualquer lugar! Mas não, não dá, já fui fisgada na primeira gestação, já provei do poder da ocitocina e nesta quero um pouco mais. E ai percebo o quão longe a vida real está da virtual.

Mas são divagações de uma mãe enjoada. Assuntos para mais alguns meses.

...

Filhota está bem, brincando, mais fofa que nunca e eu tenho curtido nossos momentos juntinhas já com uma certa nostalgia. E ela está um grudinho daqueles e cheia de habilidades que agora me chama a todo instante para conferir mamãe, mamãe, a Ísis subiu na cadeira so-zi-nha, ou me chama para brincar mamãe, binca cumigo, ou na hora do soninho, mamãe me leva no becinho?

Brincando ela aprendeu algumas letras, mas gosta mesmo é do I de Ísis. Dia desses vendo um desenho do Mickey, Donald e Pateta identificou nos numerais do relógio o I de Ísis. Morri de orgulho!

Ela olha para minhas sardas e pintas no rosto e me diz que a mamãe tem formiguinhas!

Ela cuida de mim, me dá beijinho e fica do meu lado quando estou muito enjoada, faz carinho nas minhas bochechas e me chama de godinha ou fofinha.

Ainda é a ladra mais rápida no gatilho quando o que está em jogo são pedaços de chocolate, chocolate esse que ainda é o de páscoa, só para se ter uma idéia do exagero!

...

Confesso que meu coração fica um pouco triste quando a imagino não sendo mais o meu bebê, mas sim a irmãzinha mais velha, sei lá, pode ser bobagem, mas é assim que me sinto.

E o meu segundinho, tadinho, largado às traças, ou melhor, ao útero, porque tá difícil em meio a enjoos e demandas externas tirar mais que alguns minutos do dia para pensar nele. Marido até comentou que mal via a "bolinha". Tem o fato da imensa quantidade de roupas que usamos neste frio polar aqui do sul, mas tem também  a imensa falta de tempo e os meus enjoos, que me deixam desconectada por bons momentos do dia, unicamente concentrada em não vomitar na mesa de trabalho, no carro, no sapato do chefe, afe!


segunda-feira, 28 de março de 2011

A primeira sessão de por quês a gente nunca esquece...



Desde que eu escrevi esse texto aqui muita água já passou por debaixo da ponte de carneirinhos brancos e saltitantes do sono. Tem noites que tudo sai perfeito, como num roteiro de filme, mas é claro que tem aquelas noites em que nada dá certo e ontem foi uma delas, acrescida de uma pitada de especialidade, já que foi a sua primeira sessão noturna de por quê? (ou pu quê?, como você diz).

Em tempo:
A primeira vez que você fez uso do pu quê, foi numa tarde em que estávamos brincando eu, você e o porquinho (fantoche) e lá pelas tantas subiu um cheirinho característico de fraldas cheias. O porquinho prontamente te avisou que as fraldas estavam cheias e deveriam ser trocadas para continuarmos a brincadeira. Na hora você parou, olhou para mim (sua mãe) e largou um pu quê? Explicações sobre a comida, as bactérias, o bumbum assado e a higiene necessária e esperada para seres humanos e você deu o assunto por encerrado.

Continuando...

Noite passada acordo às 02:00h da madrugada com você me chamando. Tento te convencer a deitar novamente, você não aceita, quer colinho. Pego você e sentamos na poltrona. Você pede o tetinho iaiate (você já sabe falar chocolate, mas sempre que pede seu leite, pede desta forma). Eu te explico que você precisa ficar no berço para que eu possa preparar o leite. A partir daí, seguiu-se quase uma hora de pu quês:

- Filha, você precisa ficar no seu berço para a mamãe preparar o seu tetinho.
- Pu quê?
- Porque você cresceu, está mais pesada e a mamãe não consegue mais preparar o tetinho apenas com uma mão, sente dor nas costas. Você espera no bercinho?
- Nããão! Num qué becinho, qué caminha!
- Não filha, a cama da mamãe está desarrumada, não dá para você esperar lá. Você tem o seu berço.
- Num qué beço, qué caminha, tetinhoooo iaiate!
- Já te expliquei: fica no seu berço que eu preparo o teti para você. Ou ficamos aqui na poltrona até você dormir (percebe que a paciência já estava rareando?).
- Pu quê?
- Porque é de madrugada, hora de dormir.
- Pu quê?
- Porque de noite a gente dorme para descansar, para ter energia para brincar de manhã. Você não gosta de sair e brincar com seus amiguinhos? Tem que nanar (paciência zero aqui)!
- Pu quê?
- Porque é assim que as coisas são: de noite dorme, de dia brinca e agora é de noite.
- Qué tetinhoooo!
Explico tudo novamente
- Nããoooo! Mufada! (pede para ir para o sofá da sala)
- Não filha, agora não é hora de ver desenho.
- Pu quê?

Segue-se mais explicações sobre o relógio biológico, falo do Simão (do livro Todas as Noites do Mundo), falo do berço, etc, etc.

Quase uma hora depois acho que respondi todas as suas perguntas sem cair em contradição, pois você virou para mim e pediu o tetinho iaiate pela milionésima vez, aceitando esperar por ele no berço. Fiz 100ml de leite (sem o chocolate, pois de madrugada você não percebe) e vinte minutos depois de muito senta, deita, coloca bundão de fralda na minha cara, me cobre com sua mantinha, me dá seu travesseiro, você finalmente conseguiu dormir.

Quando estou te cobrindo você sorri no sonho. E eu rio junto. Mais uma noite.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Mãe na teoria X mãe na prática

Ísis ajudando a mamãe a fazer bolho

Um dia com certeza você vai ser mãe na teoria, vai dizer que quando você for mãe seus filhos serão educados assim, ou assado, não serão com os filhos daquela sua amiga que não consegue nem ir ao supermercado sem enfrentar uma crise birrentística por causa de um pirulito. Não, você vai ser firme!

Mas talvez um dia você seja mãe na prática e aí, minha filha, quase todas as suas teorias cairão por terra...

CENA 1:

Você vai estar atarefada arrumando o seu quarto: a cama está por fazer, o banheiro está de pernas para o ar e tem uma pilha de roupas sobre o pufe para você separar o que vai para lavar e o que volta para o armário. Olha no relógio: já deveria ter começado o almoço. Na porta você vê sua filha chegando com duas bermudas numa mão e um body na outra dizendo que vai aumá a opinha, vai dobá, vai gadá a opinha, para em seguida começar a empilhar todas as roupas das gavetas dela no meio do seu quarto ainda desarrumado. A mãe na teoria que ainda te habita diz que é para você não permitir aquilo, fazê-la guardar as roupas, explicar que não pode tirar as roupas da gaveta e colocar no chão, que isso não é arrumar, é desarrumar, etc, etc, etc, MAS a mãe na prática que você se tornou deixa tudo como está, afinal enquanto ela empilha todas as roupas dela no meio do seu quarto você ganha dez minutos de paz para fazer aquela arrumação the flash neste cômodo da casa.

CENA 2:

Você chegou do trabalho, colocou a mesa, esquentou o jantar da filha, chamou o marido para lanchar. Durante a refeição vai se desdobrando entre uma mordida no sanduiche, tentar ouvir o que o marido está contando/falando/perguntado/pedindo, enquanto gentilmente ajuda a pequena a comer o próprio jantar. Lá pelas tantas o marido está amuado porque você não consegue prestar muita atenção ao que ele diz enquanto alimenta a filha e tenta alimentar a si mesma e a pequena está derrubando a comida do prato sobre a bandeja do cadeirão para em seguida esfregá-la por toda a bandeja e esmagar os grãos de arroz e feijão nas mãos. A mãe na teoria que ainda te habita te fala para não permitir aquele tipo de comportamento, que comida não é brincadeira, que ela não deve derrubar do prato para o bandeijão, que ela vai se sujar, te sujar, sujar o chão, o mundo! MAS a mãe na prática que você se tornou pensa que ela já comeu o suficiente e que enquanto ela está distraída lambuzando tudo com os restos de comida você vai conseguir terminar seu sanduiche sossegada e trocar meia dúzia de palavras ininterruptas com o marido.

CENA 3:

Você descobriu recentemente que a arte de fazer bolos pode ser estremamente relaxante, então você se programa para testar uma receita nova toda semana, avisa ao marido que vai para a cozinha fazer um bolo e pede para ele dar aquela atenção básica para a filha não te seguir, mas a pequena ainda não descobriu que o pai será seu herói num futuro bem próximo (ao menos é o que você espera que aconteça) e te segue obstinadamente por todos os cômodos da casa, inclusive no banheiro, então nesse dia já era de se esperar que ela te seguisse até a cozinha. Enquanto você separa os ingredientes, a pequena pede colo com uma entonação de voz e carinha de fazer inveja a muito cachorro que caiu de mudança. A mãe na teoria que ainda te habita te diz para ficar firme, não ceder, não dar colo e explicar que agora você não pode, MAS a mãe na prática que você se tornou sabe que será um desgaste desnecessário, pois você só é capaz de resistir aos pedidos insistentes de cóninho por no máximo trinta segundos. Então resignadamente você pega a filha no colo, a apóia nas ancas (o que está resultando numa lordose/escoliose daquelas!) e tem uma idéia de gênio: vai pedir para ela te ajudar a fazer o bolo. O resultado é que você ganha quinze minutos de paz para terminar o bolo real, enquanto a pequena se esbalda num pote com farinha de trigo...melhor nem pensar na sujeira!

CENA 4:

Você precisa fazer o almoço. Coloca a filha no sofá e diz que vai colocar um DVD para ela assistir, pergunta qual ela prefere e a resposta é quase sempre a mesma nos últimos tempos: pantela talan, talan. Você coloca o DVD e sai para a cozinha, mas mal consegue pensar direito no que vai cozinhar e a pequena aparece ao seu lado. Você insiste para ela ir ver a Pantera Cor de Rosa, mas ela responde prontamente que nin qué a pantela. Tá. Finge que não está nem aí para ela, mas a espertinha sabe como fazer as coisas e já está com a porta do armário de comida aberto, puxando sacos de arroz, açúcar e farinha, derrubando enlatados, colocando macarrão cru na boca. Incrível como ela é rápida, você pensa, enquanto a mãe na teoria que ainda te habita fala que esse tipo de comportamento não deve ser permitido, afinal, ela pode se machucar, derrubar tudo pelo chão e além do mais comida não é brinquedo, como diria sua avó. MAS a mãe na prática que você se tornou sabe que enquanto ela está distraída ali com os potes, enlatados e pacotes você ganha dez minutos, que devem ser suficientes para fazer os piques (picar cebola, alho, tempero verde), colocar o arroz para cozinhar, temperar os bifes, fazer salada de alface e tomate e colocar o pote de feijão para descongelar no microondas.

Na sua cabeça vem aquela letra de música dos Engenheiros do Hawaii:

Somos o que há de melhor
Somos o que dá para fazer
O que não dá para evitar
E não se pode escolher
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