Imagem: arquivo pessoal
Enquanto pego a mochila da Ísis, a professora (que aqui é chamada ridiculamente de prô) me chama a um canto e conta animada:
- Ai, hoje tive que rir da Ísis!
Eu, disfarçando o mal estar que a frase me causou, pergunto: por quê?
- Eu apelidei ela de Ísis Valverde (pode isso, Arnaldo, apelidar os alunos?), né, a menina piriguete da novela.
(Céus, eu penso, não bastasse agora todas as Adrianas serem "esteves", todas as Reginas serem "duarte", todas as Déboras serem "seco" ou "falabella", agora tenho que ouvir o adjetivo piriguete vindo de uma professora, pasmem, de escola particular que segue o sistema Positivo de ensino. Morro e não ouço tudo).
Diante da minha expressão pasma, ela continuou:
- Então, eu comecei a chamar ela de Ísis Valverde e ela se revoltou comigo, me disse braba que não era verde, era branca e que ela não tinha pasta verde na garganta! kakakaka.
Minha reação?
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Seguida de um sorriso prá lá de amarelo e uma vontade louca de sentar com aquela prô para conversarmossobre educação, bulim, apelidos, etc...
...
Dia desses ela chega em casa toda chorosa perguntando pelo presente dela. Eu fico sem entender nada, pois presentes aqui em casa não tem muita importância e nunca dizemos que vamos dar, comprar presente para alguém. Quando queremos nos presentear, nos presenteamos e às crianças. Mas ela continuava chorosa e me perguntando pelo presente dela.
- Que presente, Ísis?
- O meu presente, hoje é dia de ganhar presente!
- Quem te disse isso, minha filha?
- Hoje é dia de ganhar presente, a prô disse que no natal a gente ganha presente, que o papai noel traz!
Ah...
Entendi.
Nem saímos de outubro e ela já está sendo bombardeada pelas histórias de natal, presentes, papai noel. Mais presentes, que outra coisa, pelo visto. Respiro. Conto e largo:
- Filha, olha só, presente não tem dia para se ganhar. Presente é algo que a gente dá quando quer, quando tem vontade. Não precisa ter um dia para ganhar presente, mas realmente é tradição se presentear as pessoas no dia de natal. Não é uma obrigação. O natal está longe ainda, não se preocupe com presentes. Você não ganha presente da mamãe, do papai sem ser dia de natal?
- Uhum.
- Então...(aqui ia enveredar por uma ladainha sobre consumismo, há, mas achei que já estava bem complexo para ela e emendei um agora vai lá aproveitar o sol e brincar).
Ela sai porta afora e percebo que neste ano o enfoque do natal será diferente aqui em casa...
...
Percebo que há dias o lanche dela volta intacto. Converso com a professora na saída da escola. Ela me conta que os colegas se convidam para seus lanches e que a Ísis se alimenta bem, come o lanche dos coleguinhas.
Há.
E que lanche trazem os coleguinhas?
Aham...isso mesmo: chips, bolacha recheada, cereal cheio de açúcar e chocolate, quando não balas, chocolates e afins.
Não são todos, claro, mas uma grande parte deles. E ela, que é uma formigona, vai direto nos doces alheios e recusa seu sanduiche, seu bolo caseiro, seus sucos naturais e frutas.
Falo que ela não deveria lanchar esses alimentos todos os dias e que teríamos que estudar uma forma das crianças se alimentarem de maneira mais saudável na escola. Ela, a professora, me diz que somente na sexta feira é que os pais poderiam levar lanche livre (= menos saudável). Mas essa não é a realidade.
O grande problema para mim é que o consumo de alimentos muito industriais e cheios de açúcar faz com que o paladar da Ísis fique muito alterado e ela deixa de comer as frutas, os legumes, os sucos naturais, que possuem sabor mais suave e não tão doce.
Já passamos por isso com o nascimento do Pedro, quando entre inúmeras novidades, perdemos a mão com a alimentação dela. O resultado foi que pouco tempo depois percebemos que ela já não queria comer os alimentos mais naturais, apenas os industriais! Cheios de açúcar e corantes!
De lá para cá, voltamos com a alimentação mais natural para ela também e quando ela foi para a escola já havia normalizado. Porém, com esses lanches coletivos, a coisa tá saindo dos eixos novamente.
O que fazer?
...
Quando fiz a matrícula da Ísis na escola dela percebi que estava sendo instalada uma cozinha na cantina, onde as crianças aprenderiam a preparar alimentos saudáveis (assim me enfatizou a diretora), aprenderiam sobre os alimentos e os utilizariam como subsídio para aprendizados mais experimentativos.
Eu, claro, adorei a ideia!
Mas a realidade é sempre muito diferente da teoria e em dois meses de cozinha experimental a única coisa que as crianças aprenderam a fazer foi bolinha de brigadeiro comprado de pote no supermercado (ainda se fosse o natural, ao menos poderiam perceber a transformação daqueles ingredientes em algo novo e tirarem algum aprendizado daí) e mini pizza. Ou seja: teoria 10 X prática 00.