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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O Pedro pode, mamãe?

Imagem: arquivo pessoal

Essa tem sido a pergunta da vez em diversos momentos. Em outros tantos ela me diz que o Pedro não pode isso ou aquilo porque meninos não podem. 

Alerta ligado. De onde vem isso? De mim e do pai é que não, ainda, mas ela pode ouvir de nossas funcionárias e na escola. 

Ela acha que rosa é cor de meninas (por quê será?) e se recusa veementemente a usar um casaco de tricô laranja, bege e marrom porque ela disse que é de menino! 

Ô mundinho besta esse! É muito fácil o mundo lá fora desconstruir em segundos o que você levou pouco mais de 3 anos para construir. Mas eu sigo firme porque sei que na vida adulta será o que ela vivenciou na própria família o que ela levará como exemplo de vida. Bom ou ruim.

...

Mas também temos aqueles dias em que a pergunta é assim, desprovida de julgamento de gênero, mas eu não compreendo, o que me leva sempre a pensar e repensar que as crianças são tão mais simples, tão mais puras, tão mais encantadas!

- Mamãe, o Pedro pode usar? ela me pergunta apontando para o seu boné todo trabalhado nas flores rosa e lilás. Eu não perco a chance e respondo que, sim, o Pedro pode usar, já me achando a revolucionária por dizer que o meu filho macho sangue bom pode usar boné de flores rosa e lilás!

Ela me olha e coloca o boné na cabeça do irmão. Fica enorme, ele fica agoniado com aquilo, eu tiro. Ela retruca:

- Mas mamãe, você disse que o Pedro podia usar!  

Ah, tá...a pergunta dela não estava inoculada de conceitos machistas, sexistas, do pode não pode dos gêneros. Ela só queria saber se o Pedro podia usar aquele boné, ponto; não aquele boné rosa e lilás que a sociedade ensina que foi feito para meninas!


Menos, Janine, menos... :)

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Sou masculino e feminino?

Imagem: arquivo pessoal


O que é ser mulher?
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O que é feminino?
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O que é da fêmea humana, mamífera, ser natural e pertencente à biosfera?
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O que é ser homem?
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O que é masculino?
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O que é do macho humano, mamífero, ser natural e pertencente à biosfera?

...

Minha cabeça está dando voltas e mais voltas. Ao ter filhos de sexos diferentes eu pensei que meu maior desafio seria não cair na armadilha do machismo social e da falocracia; mas o desafio é bem maior que esse. Passar valores, ajudar na definição de conceitos, valorizar o masculino e o feminino em meus filhos parece ser uma tarefa hercúlea.

Vencer minha própria hiprocrisia. Libertar meu espírito das convenções. Dialogar e exemplificar.

Como? Se mal consigo responder às questões acima sem cair na falácia dos discursos pré concebidos onde valorizo o feminino e a inserção da mulher no mundo masculino, mas rechaço o contrário, salvo quando me convém, quando o masculino invade as atividades domésticas e o cuidado com os filhos?

...

A Ísis joga futebol com o pai. Usa camisa do timão. Eu sempre a incentivei a isso, o pai também. Ela não escolheu chutar a bola com os pés. Fui eu quem disse a primeira "chuta a bolinha, é gol!" Sempre digo que ela pode fazer tudo que quiser. Alguém discorda?

...

O Pedro, ainda é pequeno, mas já me deparei com situações em que coloquei à prova minha maneira de pensar. E o resultado não foi bom.

Eu o incentivarei a dançar? E quando ele balangar o bumbum, movimento prá lá de natural nas crianças (e nada vulgar nessa idade), eu vou me sentir desconfortável? Se ele quiser colocar algo no cabelo, como a irmã, eu vou achar ruim?

Eu deixarei que ele saia de casa usando tic tacs no cabelo ou saia, se ele assim desejar? Ou eu irei repetir o discurso do "menino não pode"?

Se menino não pode tantas coisas, como ele reagirá ao perceber que a irmã se insere nas atividades dele, mas ele não poderá inserir-se nas dela?

...

Por quê a barreira entre os gêneros parece estar ruindo apenas para a inserção das mulheres no mundo masculino, mas não o contrário? Temos um problema aqui...

...

E eu volto às perguntas acima:

O que é ser mulher?
O que é feminino?
O que é ser fêmea humana, mamífera, natural, pertencente à biosfera?
O que é ser homem?
O que é masculino?
O que é ser macho humano, mamífero, natural, pertencente à biosfera?

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Desaprendendo na escola...

Imagem: arquivo pessoal


Enquanto pego a mochila da Ísis, a professora (que aqui é chamada ridiculamente de prô) me chama a um canto e conta animada:
- Ai, hoje tive que rir da Ísis!
Eu, disfarçando o mal estar que a frase me causou, pergunto: por quê?
- Eu apelidei ela de Ísis Valverde (pode isso, Arnaldo, apelidar os alunos?), né, a menina piriguete da novela.
(Céus, eu penso, não bastasse agora todas as Adrianas serem "esteves", todas as Reginas serem "duarte", todas as Déboras serem "seco" ou "falabella", agora tenho que ouvir o adjetivo piriguete vindo de uma professora, pasmem, de escola particular que segue o sistema Positivo de ensino. Morro e não ouço tudo).
Diante da minha expressão pasma, ela continuou:
- Então, eu comecei a chamar ela de Ísis Valverde e ela se revoltou comigo, me disse braba que não era verde, era branca e que ela não tinha pasta verde na garganta! kakakaka.
Minha reação?
?????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????
Seguida de um sorriso prá lá de amarelo e uma vontade louca de sentar com aquela prô para conversarmossobre educação, bulim, apelidos, etc...

...

Dia desses ela chega em casa toda chorosa perguntando pelo presente dela. Eu fico sem entender nada, pois presentes aqui em casa não tem muita importância e nunca dizemos que vamos dar, comprar presente para alguém. Quando queremos nos presentear, nos presenteamos e às crianças. Mas ela continuava chorosa e me perguntando pelo presente dela.
- Que presente, Ísis?
- O meu presente, hoje é dia de ganhar presente!
- Quem te disse isso, minha filha?
- Hoje é dia de ganhar presente, a prô disse que no natal a gente ganha presente, que o papai noel traz!
Ah...
Entendi.
Nem saímos de outubro e ela já está sendo bombardeada pelas histórias de natal, presentes, papai noel. Mais presentes, que outra coisa, pelo visto. Respiro. Conto e largo:
- Filha, olha só, presente não tem dia para se ganhar. Presente é algo que a gente dá quando quer, quando tem vontade. Não precisa ter um dia para ganhar presente, mas realmente é tradição se presentear as pessoas no dia de natal. Não é uma obrigação. O natal está longe ainda, não se preocupe com presentes. Você não ganha presente da mamãe, do papai sem ser dia de natal?
- Uhum.
- Então...(aqui ia enveredar por uma ladainha sobre consumismo, há, mas achei que já estava bem complexo para ela e emendei um agora vai lá aproveitar o sol e brincar).
Ela sai porta afora e percebo que neste ano o enfoque do natal será diferente aqui em casa...

...

Percebo que há dias o lanche dela volta intacto. Converso com a professora na saída da escola. Ela me conta que os colegas se convidam para seus lanches e que a Ísis se alimenta bem, come o lanche dos coleguinhas.
Há.
E que lanche trazem os coleguinhas?
Aham...isso mesmo: chips, bolacha recheada, cereal cheio de açúcar e chocolate, quando não balas, chocolates e afins.
Não são todos, claro, mas uma grande parte deles. E ela, que é uma formigona, vai direto nos doces alheios e recusa seu sanduiche, seu bolo caseiro, seus sucos naturais e frutas.
Falo que ela não deveria lanchar esses alimentos todos os dias e que teríamos que estudar uma forma das crianças se alimentarem de maneira mais saudável na escola. Ela, a professora, me diz que somente na sexta feira é que os pais poderiam levar lanche livre (= menos saudável). Mas essa não é a realidade.
O grande problema para mim é que o consumo de alimentos muito industriais e cheios de açúcar faz com que o paladar da Ísis fique muito alterado e ela deixa de comer as frutas, os legumes, os sucos naturais, que possuem sabor mais suave e não tão doce.
Já passamos por isso com o nascimento do Pedro, quando entre inúmeras novidades, perdemos a mão com a alimentação dela. O resultado foi que pouco tempo depois percebemos que ela já não queria comer os alimentos mais naturais, apenas os industriais! Cheios de açúcar e corantes!
De lá para cá, voltamos com a alimentação mais natural para ela também e quando ela foi para a escola já havia normalizado. Porém, com esses lanches coletivos, a coisa tá saindo dos eixos novamente.
O que fazer?

...

Quando fiz a matrícula da Ísis na escola dela percebi que estava sendo instalada uma cozinha na cantina, onde as crianças aprenderiam a preparar alimentos saudáveis (assim me enfatizou a diretora), aprenderiam sobre os alimentos e os utilizariam como subsídio para aprendizados mais experimentativos.
Eu, claro, adorei a ideia!
Mas a realidade é sempre muito diferente da teoria e em dois meses de cozinha experimental a única coisa que as crianças aprenderam a fazer foi bolinha de brigadeiro comprado de pote no supermercado (ainda se fosse o natural, ao menos poderiam perceber a transformação daqueles ingredientes em algo novo e tirarem algum aprendizado daí) e mini pizza. Ou seja: teoria 10 X prática 00.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

O Despertar II

Imagem: arquivo pessoal

Estou sonhando. Acho que estou na praia, lagarteando ao sol. Escuto apenas o barulho das ondas e o marulhar da brisa. Algo começa a me encomodar, parece uma tosse! Alguém está gripado aqui perto, coitado! A tosse não para, vai ficando meio nervosa, parece...parece o Pedro! 

Abro os olhos, pego o celular embaixo do travesseiro: 06:30 da matina. O sol, nesse sul do sul, ainda nem apareceu e o menino já acordou! Levanto cambaleante, coloco meu melhor sorriso matinal no rosto e dou um bom dia, meu gotoso! Ele sorri e agita os bracinhos. Sempre acorda de bom humor, todo sorridente! Eu abro as janelas para em seguida pegá-lo no colo. Sentamos na poltrona e iniciamos o dia com a amamentação.

Depois de mamar ele começa seu falatório matutino, dá gritinhos, pula no meu colo. Vamos trocar a fralda. Ele fica numa brincadeira de levantar e baixar as pernas roliças. Quer pegar pomada, fralda, lencinho da minha mão.

Vamos todos tomar café da manhã. Coloco-o no cadeirão e dou alguma coisa para ele comer. Não coloco no prato, mas sim na bandeja do cadeirão: frutas cortadas, biscoito, pão, bolo caseiro. O que estiver disponível. Ele come tudo!

Depois do café vou me arrumar para o trabalho, ele fica na minha cama. Ora me chama, resmunga, ora se distrai com alguma coisa. Pego no colo um pouco entre uma peça e outra; devolvo na cama. Escovo os dentes com ele no colo, e o danado quer pegar a minha escova!

Quando estou quase pronta ele reclama mais. Acho que já sabe que vamos sair para trabalhar. O pai tem que deixá-lo com a babá para a saída ser menos ruim. Um cheirinho no pescoço, ele me olha meio choroso, o pai o leva para a babá. Ainda escuto uma resmungada, um gritinho reclamão quando cruzo a porta em direção ao carro. Mais um dia que começa...


Fiquei encantada com a seleção deste texto para o TOP FIVE do Recanto das Mamães Blogueiras! Obrigada, queridonas!

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O Despertar


Imagem: arquivo pessoal

Ouço o grito do despertador. Ao invés dos tradicionais bléim-bléim, prim-prim ou a música escolhida no celular, o meu toca assim: mamãããeeee, quero tetiiinhooooo! Invariavelmente às 07:00 horas da matina, mesmo aos sábados, domingos e feriados. Mesmo nas férias. 

O chamado só para quando eu levanto da cama E vou até o quarto - nem pensar em levantar e ir direto preparar o tétinho, o chamado não para -, dou um beijo de bom dia, um cheirinho no pescoço, que exala cheiro de travesseiro e suor e aviso que já vou preparar o tétinho. Na maioria dos dias não recebo um bom dia de volta. Mau humor matinal. Não posso reclamar, eu só viro gente depois do café da manhã. Mas tem aqueles raros dias em que eu recebo um feliz e sorridente bom dia, mamãe. É a glória!

Tétinho pronto, levo. Sempre o mesmo pedido: você fica aqui 3 minutinhos, tá bem? Nem sempre eu fico e quando eu não fico a pergunta que não quer calar é: não poderia mesmo ter ficado? Minha vida ficaria tão mais atrapalhada se eu ficasse mais 3 minutinhos ali? Se fico, fico. Se não fico, aviso que preciso preparar o café da manhã ou qualquer outra coisa do cronograma de afazeres diários.

Café pronto. Tétinho devorado. Vamos todos para a mesa. Ela não come. Já desisti de insistir. A fome dela virá mais tarde. Mas se ela não come, fica tentando roubar requeijão, doce de leite, manteiga e queijo. E como temos um canto alemão, ela fica pulando, dançando, subindo e descendo das costas do pai. O café da manhã fica entrecortado por pedidos e avisos de não pode, não coloque a mão, não, isso é para comer com pão, cuidado que você pode cair, saia das costas do seu pai. Há aqueles dias em que desisto, volto a ser criança e finjo que não vi o dedinho indicador furando o pote de doce de leite, ou a mãozinha que dá aquela beliscada na pontinha do queijo muçarela. Ignoro os perigos da queda. Do chão não passa.

Depois, a parte chata, cansativa. Trocar de roupa, pentear os cabelos e escovar os dentes. Ô luta diária! Ela quer escolher a roupa, mas se deixar usa sempre a mesma. Tem as preferidas dela que mal voltam da lavanderia e já vão para o corpo. Não posso culpá-la. Quando me casei aos 25 anos ainda usava a mesma camisola de algodão que havia ganhado da minha madrinha aos 15 anos. Foi comigo para a noite de núpcias e lua de mel.Um dia ela havia sido azul. Quando me desfiz dela, não havia como identificar se aquilo era uma vestimenta ou um pano de chão.

Pentear os cabelos. Tão lisos! E fazem um emaranhado na nuca difícil de desfazer. Por mais cuidado que eu tenha, ela sempre reclama, mia e foge. Fica parada, eu digo, se você sai correndo é pior! Mas não adianta, ela diz que dói e que não vai escovar os cabelos. Deixa assim, mamãe! Ela briga, a danada.

Escovar os dentes. Houve um tempo em que ela adorava, agora foge da escova de dentes como o diabo foge da cruz. Dificulta, não abre a boca, coloca a língua para fora. Fica escorregando, pulando, se virando. Não para quieta um segundo. Perco a paciência, digo para ficar quieta, abrir a boca, facilitar, se comportar. O dente vai ficar podre, como aqueles que você viu na foto, é isso que você quer? Aham, ela me responde, com o seu inconfundível arzinho blasé. Ai!

Quando saio para trabalhar, ela me dá tchau, mas eu tenho que pedir o beijo. Beijo na mamãe! E ela faz com a boca, de longe, estalando os lábios: muack, muack. Acena com a mão. Bom trabalho! ela me diz.



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