Eu não queria que a Ísis iniciasse sua vida escolar ainda. Por minha vontade ela iria apenas aos 5 anos, como eu mesma fui. Infelizmente não foi possível concretizar esta vontade por uma série de fatores e cá me encontrei com uma decisão não muito bem aceita por mim mesma. Já escrevi sobre isso
aqui.
E só pensava na adaptação, respirava adaptação, adaptação, adaptação. E foi difícil, não nos primeiros dias, quando tudo ainda era novidade e ela, a minha pequena, que hoje ouso chamar de minha mais velha, achava que a escola era um lugar legal para ir, se divertir, brincar no parque, dançar com os amiguinhos, recortar, colar, enfim...uma extensão de nossa própria rotina em casa, só que mais legal, pois que incluía outras crianças.
Quando ela se deu conta de que a escola seria o lugar onde ela estaria sem mim, porque eu retornaria ao trabalho, o mundo caiu. Choros nervosos, raiva, frustração. Na tentativa de enganar a vida ela me dizia para ficar "só mais 3 minutinhos" na sala com ela. E esses 3 minutinhos viravam 6, 9, 12... Teve um dia que ela saiu correndo tão desesperada de dentro da sala, quando me viu saindo depois do "tchau, a mamãe vai trabalhar", que bateu na porta, caiu no chão, na frente de uma turminha do quinto ano, que, claro, riram. E ela chorava, e eu segurava as lágrimas.
E conversei com a pedagoga, uma, duas, três vezes. O que eu ouvi? Ladainha. Na boca da pedagoga a Ísis me testava e eu não podia ceder, porque se eu cedesse, ah...ela venceria e aí, adeus escola. A escola foi apresentada como um mundo de perfeição, onde as crianças eram "estimuladas" (estimular é o novo preto) e por isso seriam mais desenvolvidas. Melhor que ficar o dia todo em frente à televisão, ela me disse. Só que a Ísis nunca ficou o dia todo em frente à televisão.
E eu fiquei com raiva, frustrada, porque não estava segura daquela decisão, ou melhor, eu sabia que não queria aquela decisão. Havia outra forma? Não, nenhuma que me satisfizesse. A escola era dos males o menor.
O que acontece é que eu tinha uma babá muito boa, gosto muito dela, mas a menina tinha um problema de saúde que a fazia faltar todos os meses de 3 a 5 dias seguidos para realizar consultas médicas, que acontecem em Porto Alegre, já que aqui na fronteira a rede médica é praticamente nula. Quando só tinha a Ísis, tudo bem, eu dava um jeitinho aqui, outro ali; mas agora com os dois ficaria inviável esta situação. Como não entramos num acordo, tive que dispensá-la à contragosto. Foi aí que a escola entrou, porque nao consegui outra babá no mesmo nivel dela e se fosse para ter alguém que a deixaria o dia todo em frente à televisão, sim, melhor ir para a escola.
Então vamos erguer a cabeça, deixar o ideal de lado e trabalhar com o possível no momento. Vieram conversas, explicações, pedidos reiterados na escola para que, ao menos neste momento, ela tivesse uma atenção especial, que facilitasse a separação. Um belo dia marido, que estava cansado de me ver chorar depois de deixá-la na sala de aula, resolveu deixá-la ele mesmo. E eu me lembrei de Laura Gutman. Os pais tem esse papel importante, de separador, de motivador da ampliação do círculo de segurança de nossos filhos. Porque a mãe, a mãe não separa, ela fusiona (na maoria das vezes).
E nosso esquema agora funciona assim: o papai leva para a escola e a mamãe busca. Teve choro? Teve. Ela grudou nas pernas do pai um dia. Ele ficou nervoso, nunca que ela havia feito isso. Ficou preocupado, me pediu para ficar por ali olhando. Cena de filme de comédia, mas não era engraçado. Mas o tempo, ah, esse amigo, ele soluciona tudo para nós, porque como já diz o ditado "quando não há remédio, remediado está". Meu bebê velho, como ela passou a se chamar, entendeu bem que não havia mais nada a fazer e a escola era necessária neste momento.
Então a adaptação é um "não há mais nada que eu possa fazer, a realizade é essa, vamos em frente". Crescer dói, mas é necessário. Separar dói, mas faz parte da vida como um todo.
Depois disso ela se abriu, se permitiu conhecer, brincar, relaxar. E eu me conformei. Ainda tem choro? Tem, e a mantinha levada todos os dias ameniza os momentos de saudade de casa. E ela se apegou em uma professora, então, em comum acordo com a escola, esta professora está sempre lá na sala de aula para recebê-la. Não sei até quando, mas por enquanto está sendo assim.
Na vida dela, de bom, o que mudou foi a hora do sono. Ela dorme mais cedo. Mas de resto, ou não mudou nada, ou piorou, como o estresse, por exemplo. Quando ela chega da escola no final da tarde, é o caos. Ela está cansada, saudosa, com fome. Estamos todos. Ainda não conseguimos arrumar este momento.
E vou te falar, viu? É um tal de levar potinho, folhinha, fotinho, recortes, tarefas (!), que não acaba mais! Fora os
dias de...esta semana tem o dia dos avós! Um evento! Daí a minha, que vê os avós uma vez por ano, não vai para a escola porque não posso permitir que ela fique lá, largada às traças sem os avós, né? E toma arrumar daqui, esticar dali.
Dia desses fui reclamar com a pedagoga sobre as tarefas dela. Sério...tem necessidade de crianças de 3 anos terem tarefas para fazer em casa? O que essas escolas estão pensando? Falei que não havia condição de receber a tarefa no final da segunda e entregar na terça! A que horas nós faríamos se eu trabalho o dia todo? E se não é para nós, os pais, fazermos com ela, então prá quê a tarefa?
Enfim, completamos o primeiro mês de aula. E eu já sou a mãe chata do grupo III. (: